um dia sem fim

midnight gospel

agora sinto que não me identifico com o que tenho escrito
e que essa porra nunca vai vingar
escrever frequentemente tem o problema de cair no lugar comum de si mesme
do que pode o que não pode
do vício e do limite das palavras
gosto do texto que é mais desesperado

tive medo de falar com uma das pessoas que mais converso ultimamente
que um amigo morreu, pra não ser chata
senti solitária
acho que deixei um pouco de escrever por isso também
já saturei a palavra morte
coisa mais adolescente

escrevo com muito pudor e medo das pessoas
mas sobretudo da morte

esse amigo por sinal tem uma música com o título ‘’(e o tempo já ficou pra trás)’’
e não preciso escrever duas vezes pra enfatizar

e aliás ele não ‘’tinha’’, ele ainda tem

pensei ‘’por que não escutei mais essa música quando ele tava vivo?’’
e isso não é um apelo viu
senti um pouco de culpa

tenho me sentido uma merda no geral há cerca de uma semana
sem disposição pra bater de frente com meus sonhos
não vejo propósito e principalmente agora não tenho esperança
mas não é como se eu fosse parar de tentar
é uma merda mas é a vida
fazer arte é complicado nem sempre a gente gosta e isso já foi mais constante pra mim
comecei a ter certa autoestima e a me permitir gostar das coisas que faço
na verdade, tem sido um exercício porque eu sempre pensei
que se eu me depreciasse antes de qualquer pessoa as coisas seriam mais fáceis
eu seria levada mais a sério e não me importaria tanto com as críticas
mas sinto que foi totalmente o contrário
sinto como se tivesse deixado de me viver por muito tempo
o medo e isso tudo é clichê mas é verdade
como quase tudo que eu penso que é clichê e que eu não gostava por isso
mas o rotineiro
as coisas pelo que são as coisas
mesmo sem ser da forma mais sangrada do mundo
são tão pesadas quanto
ou mais
como por exemplo a frase ‘’(e o tempo já ficou pra trás)’’

se eu fosse levada a sério… tenho pensado muito nisso. até por mim mesma.

esse amigo foi uma das primeiras pessoas que me levaram a sério.

--

--

escritora transfeminina de macaé/RJ — escrevo como uma gata — lambendo as próprias feridas — com a língua áspera

Love podcasts or audiobooks? Learn on the go with our new app.

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store
Lambi

Lambi

escritora transfeminina de macaé/RJ — escrevo como uma gata — lambendo as próprias feridas — com a língua áspera